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domingo, 25 de outubro de 2009

Lara Matana




Há algum tempo venho acompanhando o trabalho da Lara Matana. Ela tem a seu favor algo que todo o artista almeja: estabilidade financeira. É engraçado, mas já ouvi críticas a ela por isso. Como alguém que não sofre pode ser artista? É engraçado por que ficamos discutindo a produção artística baseado nas condições de vida do artista. Se ele(a) é deslocado(a) da sociedade. Se sofreu abusos, se enfrenta Golias pelos desertos da vida. 



É claro que a arte é uma válvula de escape para situações extremas. Auxilia as pessoas a vencer obstáculos aparentemente intransponíveis, mas não é só isso. A arte também é estética. Falo sem medo de reduzir a arte da Lara à decoração e também sem reduzir o valor da mesma em um ambiente. A arte da Lara carrega consigo uma semente ecológica. Ela trabalha com resíduos de madeira que virariam pó e fumaça. Seu trabalho segundo Aline Figueiredo está muito ligado ao designe, vemos isso também e mais. 





Enxergar, como ela o faz, beleza num toco de árvore arrancado, ou enfeitar esta dureza retorcida com um abraço envolvente de uma cobra composta de pequenos pedaços de madeira entrelaçados vai além da decoração, sem dúvida.

E o que dizer de elementos trabalhados minuciosamente em finas lâminas de madeira dispostas de modo a imprimir a perspectiva infinita de um corredor. E quando ela o faz com cores que dão vida à madeira e apresentam formas e densidades diversas ao mesmo material inanimado nas mãos de meros mortais. Sim por que na sua mão ganham vida e vibram, e puxam o nosso olhar para além conduzindo-nos a uma experiência tridimensional.



Lara (re)cria formas, painéis, esculturas, quadros, faz isso há muitos anos e já conquistou o Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais que recebem e comercializam seus trabalhos. Quando o diretor Fernando Meirelles escolheu uma de suas obras para o seu filme Ensaio sobre a cegueira nós noticiamos aqui no DC Ilustrado com alegria de quem conhece o trabalho de perto. 




Você pode apreciar a exposição até o dia 30 de outubro no museu de arte e cultura popular na UFMT, em horário comercial. Se quiser conhecer mais da artista visite o site: WWW.laramatana.com.

Nas palavras da mestre Aline Figueiredo fica o registro da sua sensibilidade: [Lara] “Olha os troncos por longo tempo, até ganhar-lhes a intimidade expressiva que vai sugerir e induzir o que neles interferir e recriar. Ora conserva os sulcos que considera mais expressivos, abre frestas e lhes introduz pequenos pedaços geométricos de madeira; ora lhes acrescenta grandes pedaços, bem alisados pelos tornos, a dialogar, assim, entre o rústico e a intervenção da máquina.” 



Ordilei, luz e sombra


As fotografias de “Grafias de Luz: fatos gráficos” é o que podemos chamar de uma poesia concreta visual. Um estudo pertinente de luz e sombra

Cláudio de Oliveira
Da Reportagem

O que é a fotografia se não a grafia com a luz. A exposição do fotógrafo Ordilei Caldeira na galeria do SESC Arsenal está chegando ao fim. Em cartaz desde 12 de setembro finda neste domingo. A oportunidade de apreciar a sua arte está espalhada pela internet, mas esta exposição não está reunida em nenhuma das suas páginas que informamos ao fim da matéria.

Ordilei, como já dissemos anteriormente na matéria de lançamento da exposição, é um jovem fotógrafo, não fez trinta anos ainda, mas demonstra maturidade e sensibilidade nos seus registros.

As fotografias expostas em “Grafias de Luz: fatos gráficos” é o que podemos chamar de uma poesia concreta visual. Eu sei, o termo provavelmente não existe, mas você que conhece a poesia concreta e for até a galeria do SESC a de concordar comigo. Econômico na informação, sobrepõe a luz com objetos como se estivesse construindo uma poesia concreta retalhando as palavras em informações visuais. Ele retalha a luz produzindo sensações poéticas, às vezes, abstratas outras vezes mensagens indiretas do objeto.

As fotos parecem feitas em preto e branco em quase sua totalidade, acredito que para explorar ao máximo o contraste proporcionado por este suporte. Mas as experimentações em cor como a da janela, a da parede com sua textura amarelada e espinhosa e a abstrata que nos leva ao que parece uma fresta de luz com detalhe triangular que lembra um seio feminino, também impõem uma harmonia e simetria interessante.

No canto da galeria o visitante pode brincar com as fotos do artista exercitando composições novas unindo as formas “aleatoriamente”. Fios de sombra que se unem a bancos e barras de metal promovendo uma gramática da luz. Elementos a serem postos em ordem ou não, com equilíbrio dinâmico. 




Ordilei não faz apenas fotos artísticas, conceituais ou abstratas. Seu repertório é grande e pode ser apreciado em muitos sites, por exemplo:http://br.olhares.com/galeriasprivadas/browse.php?user_id=1618, tem inúmeras galerias criadas por ele como: natureza, urbe, pessoas, paisagens urbanas, macro e outras. No Flickr que é um dos fotologs mais utilizados do mundo, também guarda algumas (150) das suas obras: http://www.flickr.com/photos/ordicfoton/.

Para quem tiver o interesse em adquiri-las, elas estão a venda em Cuiabá na Fast Frame "Moldura na Hora" R. Estevão de Mendonça (próx. ao Choppão) e na Casa das Molduras, Rua 24 de Outubro. 




sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Compadre de Ogun



 


Argentino de nascimento e brasileiro de adoção se naturalizou em 1957. Hector Júlio Páride Bernabó ou, simplesmente, Carybé (1911-1997). Desenhista, pintor, escultor, apaixonado pela cultura brasileira, em especial, pela afro-brasileira. Carybé foi agraciado com o título Obá de Xangô (um dos pontos mais altos do candomblé) e recebeu entre outros títulos o de Doutor Honoris Causa da UFBA.

Produzia muito, mas expunha pouco. Participou da III Bienal de SP e foi homenageado na VII com uma sala especial. Deixou mais de quatro mil trabalhos entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços. Tem obras expostas nos EUA e na Rússia.

Compadre de Ogun era um capítulo do livro ‘Os Pastores da Noite’(1964) do escritor baiano Jorge Amado. Era... porque virou um livro que o próprio autor editou e também um especial para a TV Globo (1994) adaptado por Geraldo Carneiro. Inclusive é desta adaptação que surgem estas aquarelas singulares que ilustram o cotidiano sincrético da Bahia.

A história é rica antropologicamente falando e cômica. Um estivador, Massú, tem um caso sério com uma dama da noite. Do relacionamento nasce uma criança. A profissional entrega a criança para ele e some. Ele aflito por batizá-la pede auxílio à Mãe de Santo. Muitos são os pretendentes porque Massú era muito querido por todos. Ela oferece um despacho a Ogum e o mesmo diz que ele será o padrinho. O boato se espalha pela cidade e todos querem saber quem é o compadre de Ogum. Depois de descobrirem quem vai carregar Ogum e de saber qual é a igreja, Nossa Senhora dos Pretos, segue o cortejo.

Então a Mãe de Santo recebe ordem de Ogum para despachar para Exu, pois seu irmão pode querer atrapalhar o batizado. Ele pede que sacrifique uma galinha de angola, porém Exu apronta e solta a galinha. Ela então oferece três pombas brancas e Exu parece ter aceitado. Durante o cortejo ela estranha o comportamento de Ogum. O problema só, descoberto mais tarde, é que não era Ogum, mas Exu que tinha chegado antes ao terreiro. Quando desce do carro satírico para encontrar a Mãe com o bebê no colo e o Carybé, na frente da igreja aumenta o receio da Mãe de Santo.

Dentro da igreja Ogum desesperado porque Exu ia batizar a criança, procura alguém para descer. Ele encontra o padre, descendente de escravo, de origem africana, recebe Ogum e dá tapa em Exu, assumindo o seu lugar para batizar a criança.

São 31 aquarelas, de 50x35cm, que usam cores básicas para retratar com beleza o sincretismo religioso brasileiro. Dizem que Carybé sempre desenhava os rituais do candomblé, mas nunca durante os mesmos por respeito. Ele guardava as imagens na memória e as ilustrava depois.

A exposição une a literatura com as artes plásticas, pois os fragmentos do texto de Jorge Amado estão presentes ao lado das obras de Carybé. Isto torna a leitura ainda mais gostosa já que vamos além do texto para as imagens e além delas pela contínua imaginação. Ambientando a exposição ainda temos o prazer de ouvir músicas baianas com a pegada africana. A percussão induz ao transe extático e a alma está pronta para assimilar o ritual mágico.

A pesquisa exposta junto para contextualizar os autores (Carybé e Jorge Amado) foi realizada por Maristela de Fátima Carneiro, Galeart/CAC/DIESCOM – MG. A exposição foi anteriormente exibida através dos Centros de Cultura do Banco do Brasil que doou para o sistema SESC o que permite a atual circulação entre todas as unidades do SESC no Brasil. Observação: O termo Ogum é grafado desta maneira em português, mas Jorge Amado deve ter feito valer a grafia ioruba pois etimologicamente o termo vem da África e se escreve Ogun. 



Se você perdeu a exposição ou a mesma não esteve em sua cidade você pode ver um pouco da obra extraordinária deste argentino/baiano no meu flickr. É uma pena que falta o texto do Jorge Amado que dá o molho que une as imagens com comicidade.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jodorowsky, o cara

Claudio de Oliveira
Da Reportagem

Um convite para ver Jodorowsky pode ser uma ofensa grave para toda a vida. Não leve ninguém ao cinema. Vá sozinho. Antes, porém, esqueça todo o preconceito em casa e liberte-se de qualquer expectativa exagerada especialmente em relação a algum sentido.

Alejandro Jodorowsky é um ser totalmente underground. Uma pessoa que dificilmente será compreendida ainda em vida, muito menos por aqui. Não digo aqui Cuiabá, digo aqui Brasil com a anuência de Hernani Heffner, que assina um ótimo texto no catálogo sobre o artista multimídia (que termo pobre!) que já foi exibido no Brasil, mas ainda não recebeu a devida atenção.

Começando do começo: Alejandro Jodorowsky nasceu no Chile em 1929 e continua vivo. Com 27 anos foi para o México, viveu lá por 17 anos e com 40 anos foi para a França onde vive até hoje. Diretor de cinema e teatro, ator, produtor, compositor, escritor, autor teatral, filósofo, humorista, especialista em tarô, mestre reconhecido dos quadrinhos e, segundo o próprio, psicomago.

Na abertura do livreto que acompanha a exibição dos seus filmes, Guilherme Marback e Joel Pizzini, curadores da mostra sintonizam o incauto espectador. “Polêmico, anarco-alquimista...” acusa a indústria hollywoodiana de roubar conceitos-chave do seu repertório em filmes como Alien, Blade Runner e Guerra nas Estrelas. Entre seus devotos estariam David Cronenberg, os irmões Coen e David Lynch. Uma das pessoas que ajudou na construção deste mito vivo foi John Lennon e a viúva, que distribuíram e financiaram o seu terceiro longa (Montanha Mágica) depois de se impressionarem com o segundo (El Topo), ambos presentes na mostra.

Ainda segundo os curadores, Jodorowsky é “filho de Fellini com Artaud”. Desde cedo teve um fascínio pelo surrealismo, flertou com Buñuel e André Breton. No teatro dirigiu peças de autores como Beckett, Ionesco e Strindberg. É fundador do movimento Pânico, uma homenagem ao Deus Pan, juntamente com Fernando Arrabal e Roland Topor. Na literatura aninha-se entre o realismo mágico e a realidade histórica. Nos quadrinhos suas parcerias com Moebius e Manara geraram duas obras-primas do gênero no mundo. Com Moebius lançou em 1975 (depois vieram outras obras juntos) Incal, uma HQ definida como anarco-ecumênica. Sobre a obra Alejandro fala: “Eu e Moebius misturamos tarô, cabala, Jung e o que sobrou de nosso Duna (romance de Frank Herbert). Como era muito adiantado para a época, não envelheceu”.

Da sua parceria com Milo Manara, mestre da HQ erótica, nasceu Bórgia. Uma série de Graphic-novels dividida em três partes que conta um pouco da transformação do Rodrigo Bórgia no Papa Alexandre VI. Para se ter uma ideia da obra ele explica: “embarquei nesta obra porque queria mostrar que a igreja foi fundada por gangsteres e bandidos”.

A sua psicomagia desenvolve-se a partir do conceito da arte mesclado com a psicanálise. Bom talvez a síntese não seja tão boa. Ele explica em uma entrevista eterna para a TRIP: “é uma terapia vinda da arte. A psicanálise vem da ciência. A psicomagia, como investigadora do inconsciente, propõe que este seja artístico, não científico. São obras de arte as terapias, não têm uma forma sempre igual.” Ele conta no livreto da mostra que tinha um amigo moreno, que não aceitava a sua cor, não se enquadrava nem como negro, nem como branco. Com a psicomagia ele o curou. Ele pintou o amigo de branco (dos pés à cabeça) e o colocou para andar na Champs-Elysées com uma negra. Depois no dia seguinte, pintou-o de negro e o colocou para desfilar no mesmo local com uma branca. No dia seguinte pediu que saísse ao natural com uma amiga sua, uma mulata. “No passeio se apaixonou, casou com ela e teve filhos. Nunca mais se preocupou com sua cor” finaliza Jodorowsky.

É impossível descrever ou traçar ao menos um mapa desta “entidade metafísica cujo nome está em toda parte e cujos filmes não se vêem em lugar algum” descreve Bráulio Tavares. A obra arte que é o livreto vale como uma iniciação, mas nada substitui o impacto visceral da sua obra. Na entrevista citada à TRIP perguntam a ele: - “Acha que estamos aqui para amar?”, ele responde: “Procurar o amor é como estar em um rio e sentir sede. Tudo o que está à nossa volta foi criado pelo amor. É só prestar atenção ao que você é.” Vai entender...

Tem uma ótima entrevista aqui publicada com trechos da revista Reserva Cultural. O Blog é do Ariel e chama "Ou o pensamento contínuo"


SERVIÇO:
O QUE: Mostra Jodorowsky
QUANDO: de 2 a 5 de setembro, sessões às 21 horas
ONDE: Cine SESC Arsenal
QUANTO: grátis

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Re-mecanica da palavra






Underdogs
A viola caipira e rock"n roll dos Viralatas

Fama de malucos, jeito de quem não tá nem aí pro mundo, eles provam que as aparências iludem. No show, propostas definidas, inspirações libertárias e políticas


Leidiane Montfort
Da Redação do Jornal A Gazeta (MT)

Depois de um show marcante no Cine Teatro Cuiabá o grupo Os Viralata volta ao palco. Mas ninguém garante que será da mesma forma, jeito ou pegada que surpreendeu os que compareceram ao lendário teatro na Capital. Afinal dos irmãos Eduardo Ferreira e André Balbino pode se esperar quase tudo. Fama de malucos, jeito de quem não tá nem aí pro mundo, eles mostram que a aparência ilude, afinal o próximo show da banda vem com marcas e propostas bem definidas e inspiração libertárias e políticas. E pelo menos a promessa é de uma apresentação para fisgar os amantes do bom, velho e gostoso rock"nroll.

Criado a partir das violas caipiras e inspirações do rock dos irmãos André Balbino e Eduardo Ferreira, Os Viralata é composto por Anna Marimon ( poeta), Amauri Lobo, Danilo Bareiro e Rubens Lisboa. Juntos eles vêm realizando pesquisas sonoras com as violas e buscam ampliar suas possibilidades para além dos modismos. A proposta é de explorar as infinitas combinações que a viola oferece. O trabalho está em fase de transição e perspectiva de uma mini turnê nacional passando por Recife, Florianópolis, Brasília e Porto Alegre, o objetivo é ainda interagir com artistas locais.

O som da banda traz blues, rock"n roll, pagode mineiro, umas classicosas fakes inventadas, funk, samba, brega. Tudo numa salada mista de experimentações de músicas de autoria de Eduardo Ferreira e André Balbino que são ancoradas por experientes músicos do cenário matogrossense e também de performance de interpretação e poesia com Anna Marimon, primeira-dama do bando. "Flertamos com vários estilos mas a viola transcende a qualquer rótulo", declara Ferreira.

Re-Mecânica- Os Viralata se apresentam nesta quinta na festa que é uma releitura de um "furdunço" cultural que aconteceu em 1983 em Cuiabá, em que os artistas independentes da terra em que se dizia encontrar jacarés nas esquinas e cobras e índios por todos os lados queriam se firmar que eram mais que isso. E eram. "Naquela época a Mecânica da Palavra conseguiu criar um cenário de postura política e social em que se firmava fortemente a postura do que nós defendíamos e acreditávamos de princípios libertários e anarquistas. Rolou muita loucura, claro, mas tudo era dentro do contexto daquele momento. Agora a Re-Mecânica se propõe a ser um evento de efervescência da cultura urbana de Cuiabá. Uma emblemática pausa para reflexões",.

O evento multicultural vai contar com participação de poetas, músicos, palhaços, atores e artivistas. A Re-mecânica acontece nesta quinta, dia 13, no Clube Feminino, na rua Barão de Melgaço, próximo à Cemat, a partir das 18 horas. O evento marca ainda o lançamento do movimento Música Para Baixar MPB- em Cuiabá, um movimento nacional que alia princípios de tecnologias livre, direito autoral flexível, cultura colaborativa, cultura livre, cultura digital, enfim, o movimento é libertário e se norteia por princípios autogestionários. "Uma espécie de "faça você mesmo", com um avanço para o "façamos nós mesmos". Um contraponto ao capitalismo voraz, uma atitude frente ao mundo insano do consumismo desenfreado e inconsequente", na opinião do artivista.

BOX


MPB- Música Popular Para Baixar- Essa é outra paixão do viralata Eduardo Ferreira. O movimento busca discutir o futuro da distribuição dos produtos da Indústria Cultural como músicas, livros, peças, etc. "A dinâmica do mundo mudou, o que estamos questionando é o direito à liberdade de aceitar o que é imposto. Queremos a flexibilização dos direitos autorais", declara.

Eduardo lançou o livro Eu Nóia em que aplica o conceito de obra compartilhada e autoriza a divulgação do que nele está impresso. "O pensamento é o de expandir o alcance da sua obra, querer compartilhar o que você fez, ou está fazendo, com o mundo. Muitos artistas estão se juntando nesse esforço como Tico Santa Cruz, Leoni, Teatro Mágico, dentre tantos outros. Não dá para fingir que os tempos não mudaram, a dinâmica de produção e divulgação são outras. É preciso pensar no futuro, uma vez que as atuais estruturas de direitos autorais estão mais do que ultrapassadas e falidas, como o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) em que só se ouve falar mal, e que não dão conta da realidade trazida com a Internet. Afinal, quem é capaz de controlar a distribuição na internet?", questiona.

O que parecia brincadeira está se espalhando e formando redes sem volta. A internet revolucionou as estruturas da indústria cultural e suscita novas discussões na sociedade. Hoje quando o artista compõe uma obra, automaticamente ele já está protegido por direitos autorais. Esses direitos, na visão de Eduardo, funcionam como instrumento de manutenção de poder. Para exemplificar o músico cita a lei que ficou conhecida como Mickey Mouse, segundo a lei o ratinho mais famoso do mundo ao completar 70 anos entraria em domínio público (livre acesso e divulgação). Perto do prazo expirar, graças ao lobby forte dos empresários norte-americanos, o prazo se estendeu para 90 anos. "Há toda uma indústria que luta forte para manter essa estrutura. Só eles lucram, os artistas não".

O intuito do MPB é fazer as obras circularem. "É quebrar a normalidade do sistema. Mas tem gente que não aceita, são os que se assustam com esses princípios libertários. Cenário que aponta uma grande falta de informação sobre o anarquismo, que não é bagunça e sim uma organização social coletiva para a qual o mundo se encaminha", pensa Eduardo.

Mas como ficam os direitos de quem cria e seus lucros? Eduardo conta que escreveu uma tese em que se aprofunda nos novos modelos de negócio. Mas adianta que é preciso pensar diferente. No mundo em que segue o trilho do software livre o pensamento fransciscano é a tônica do processo. "Quem dá recebe. O problema é que por muito tempo o pensamento foi de apenas receber. Agora, as lógicas que funcionam são completamente novas, com sensibilização e responsabilidades mais humanas. O novo sempre vem e é preciso estar atento", finaliza.

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Só pra reforçar o evento é gratuito e todos serão convidados a participar do modo que bem entenderem.

Até lá!!!

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Re-mecanica da palavra

Cuiabá sediará pré lançamento do movimento Música Para Baixar – MPB. Movimento nacional do segmento musical que alia princípios de tecnologias livre, direito autoral flexível, cultura colaborativa, cultura livre, cultura digital, enfim, o movimento é libertário e se norteia por princípios autogestionários. Uma espécie de “faça você mesmo”, com um avanço para o “façamos nós mesmos”. Um contraponto ao capitalismo voraz, uma atitude frente ao mundo insano do consumismo desenfreado e inconsequente.

Dia 13 é um marco para a cultura cuiabana e matogrossense, pois remonta a um evento-movimento de 1983 que demarcou o início da arte urbana e contemporânea por essas bandas de cá. O evento promete e está mobilizando muita gente.

Bandas confirmadas: osviralata, fuzzly, branco ou tinto, tocandira, lopez, lobo trio, pio toledo & ellen, mandala soul.
Além das bandas teremos audiovisual matogrossense, video-clips locais, performances, teatro de bonecos, som de roda, mural-documentário (anos 80, 90 e 2000), enfim, será o point de (re) largada para uma intensa mobilização de artistas matogrossenses que lutam por um mundo melhor.

links:
http://www.fotolog.com.br/tudomentira
http://osviralatadaviola.wordpress.com
http://overmundo.com.br/agenda/re-mecanica-da-palavra

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um Show Inesquecível




Ela entrou com dez minutos nobres de tolerância. A rainha dominou o palco no primeiro suspiro. Sua voz sem esforço preenchia cada poro do corpo, eriçava o pelo até daqueles que estavam ali apenas para acompanhar um ou uma fã. A majestade de Maria Bethania impõe-se não só pela voz, mas também por sua postura rica em sentido e sentimento que transbordaram pelo Centro de Eventos do Pantanal, na noite de quinta-feira.

A casa lotada e o silêncio reverente da plateia que ovacionava a cada música impunham mais respeito. Ela abriu com “Nana” e em seguida “Beira-mar”, um sucesso poético cujo refrão guarda uma verdade suave como o vento: “Em todo o mar tem rio, e em todo o seu som tem ar e oxigênio para alimentar a todos nós”.

Em seguida entoou o hino do sertão: “Asa branca”. E o mar adentrou o Pantanal e sua religiosidade atravessou o público com o “Capitão do mato”. Em seu caminho entremeava músicas mais agitadas e mais introspectivas com uma energia de deixar as novas cantoras da MPB brasileira babando na sua verve. “Explode o coração”. Vibra a plateia de pé totalmente dominada e submissa a sua “Estrela D’alva”. Um pé no freio, uma poesia e os “Olhos nos olhos” levantam a multidão. Os aplausos, gritos e manifestações de carinho envolvem a artista, que agradece repetidas vezes: “Obrigada, senhores!”

Então ela se retira do palco após a “Volta por cima” e abre espaço para um show instrumental. Senhores de cabelo branco, média idade e mais novos dão um espetáculo a altura da sua voz enquanto a abelha-rainha respira para retornar ao controle da colmeia. Bateria, percussão rica, violoncelo, contrabaixo acústico, teclado, sanfona e violão, uma corte digna de sua majestade.

Retorna em “Reconvexo” e convida para a Bahia depois de oferecer o “Doce”. Um samba gostoso com cheiro do acarajé e a levada do candomblé. Em seguida introspectivamente, a doçura de um “Sábado em Copacabana”. Os pés no chão, o patuá no peito guardado por dois cavalos marinhos brilhantes davam o tom do figurino simples completado por uma saia estampada e um pulso cheio de pulseiras douradas.

Em ritmo de oração Terezinha dá lugar ao lamento: “Negue, negue que me pertenceu, diga que já não me quer...” E eis que chega uma carta e a poesia eriça o público que responde de pé. “Todas as cartas de amor são ridículas. As cartas de amor têm que ser ridículas. Quem me dera saber no tempo em que as escrevia que eram ridículas. Eu também escrevi cartas ridículas. Mas enfim as pessoas que nunca escreveram uma carta de amor é que são ridículas”.

Uma pausa para agradecer o convite novamente e lembrar da extraordinária Vanessa da Mata. “Em nome dela e de todos os músicos, poetas e artistas desta linda cidade e deste lindo estado, obrigada pelo convite”, suspira Bethânia.

Depois de sonhar um “Sonho impossível”, a gente não quer só “Comida”, a gente quer diversão e arte. A gente quer inteiro e não pela metade. Uma versão pausada e pesada. Uma ordem da rainha, mais arte, desejo, necessidade e vontade.

Então um lamento, uma suave melodia elocubrando as estrelas e a beleza do “Céu de Santo Amaro” recheado pelo Soneto de Fidelidade do inesquecível poetinha Vinicius de Morais. Em seguida um samba para elevar a moral e lavar as lágrimas salgadas da poesia. Como não poderia deixar de ser o bis: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Arte de beber




A China tem seus encantos e mistérios e provavelmente eu volte a eles entre um e outro artigo. Estava caminhando na praça da Paz Celestial quando fui abordado por dois jovens chineses: Colin e Wilson, 21 e 23 respectivamente. Ambos estavam estudando o inglês e queriam praticá-lo comigo. Eu estava sozinho e mesmo relutando um pouco acabei por concordar em deixá-los me mostrar a cidade de Pequim.

É claro que a partir daí meus planos foram alterados. A minha ideia era ir direto para a Cidade Proibida, mas eles sugeriram que deveríamos seguir pela Dragon Line, a espinhal dorsal de Pequim por onde veríamos casas tradicionais e um bairro voltado para a arte.

No caminho encontramos uma galeria com obras lindíssimas repletas de sentido semiótico espelhado nas cores e formas dos tecidos de seda e traços de nanquim. As quatro estações são motivos frequentes nas telas chinesas.

Seguindo a nossa linha paramos novamente em uma casa de chá. Uma experiência extraordinária. Sem dúvida eu nunca entraria numa casa dessas sem a companhia deles. A casa modesta repleta de estampas de tecido coladas à parede tinha um tom fresco e calmante pela cor verde dominante. A hostess com um uniforme típico vermelho e unhas azuis nos recebeu calmamente. Fomos levados para uma sala pequena com uma mesa central atrás da qual ficou nossa chefe de cerimônia. Conforme ela ia apresentando os chás, onze ao todo, e suas características meus acompanhantes traduziam e me explicavam.

Uma pequena xícara para cada um. Fui ensinado a segurar a xícara com o polegar e o indicador mantendo os outros três dedos abaixo do recipiente. O chá deve ser cheirado e em seguida bebido em três goles. O primeiro era para o intestino. O segundo para o sangue. E assim sucessivamente renovamos os neurônios, articulações, ossos e experimentamos a força masculina e feminina dos diferentes chás.

O chá verde tinha um sabor especial. Quando comentei, Wilson me explicou que eu provavelmente nunca tomaria um chá tão saboroso em qualquer outra época, pois a Primavera é o melhor período para a colheita e este sabor era realmente singular.

O chá de jasmim também foi muito especial. Ela coloca o mesmo em uma mini-tulipa de porcelana e tampa com a nossa xícara. Então ela vira, deixando a nossa xícara embaixo com a tulipa de cabeça para baixo. Retiramos a tulipinha rodando em círculo na beirada da xícara para escorrer. Com ela ainda quente aproximamos a sua boca dos nossos olhos. A sensação é relaxante. Em seguida rolamos pela nossa face e esquentamos a nossa mão. Só então, bebemos. O tempo e gestos calculados e a cerimônia em si deixam na memória os traços da paciência e da história chinesa em um ritual simples e cotidiano.