Mostrando postagens com marcador claudio-de-oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador claudio-de-oliveira. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de outubro de 2009

Ordilei, luz e sombra


As fotografias de “Grafias de Luz: fatos gráficos” é o que podemos chamar de uma poesia concreta visual. Um estudo pertinente de luz e sombra

Cláudio de Oliveira
Da Reportagem

O que é a fotografia se não a grafia com a luz. A exposição do fotógrafo Ordilei Caldeira na galeria do SESC Arsenal está chegando ao fim. Em cartaz desde 12 de setembro finda neste domingo. A oportunidade de apreciar a sua arte está espalhada pela internet, mas esta exposição não está reunida em nenhuma das suas páginas que informamos ao fim da matéria.

Ordilei, como já dissemos anteriormente na matéria de lançamento da exposição, é um jovem fotógrafo, não fez trinta anos ainda, mas demonstra maturidade e sensibilidade nos seus registros.

As fotografias expostas em “Grafias de Luz: fatos gráficos” é o que podemos chamar de uma poesia concreta visual. Eu sei, o termo provavelmente não existe, mas você que conhece a poesia concreta e for até a galeria do SESC a de concordar comigo. Econômico na informação, sobrepõe a luz com objetos como se estivesse construindo uma poesia concreta retalhando as palavras em informações visuais. Ele retalha a luz produzindo sensações poéticas, às vezes, abstratas outras vezes mensagens indiretas do objeto.

As fotos parecem feitas em preto e branco em quase sua totalidade, acredito que para explorar ao máximo o contraste proporcionado por este suporte. Mas as experimentações em cor como a da janela, a da parede com sua textura amarelada e espinhosa e a abstrata que nos leva ao que parece uma fresta de luz com detalhe triangular que lembra um seio feminino, também impõem uma harmonia e simetria interessante.

No canto da galeria o visitante pode brincar com as fotos do artista exercitando composições novas unindo as formas “aleatoriamente”. Fios de sombra que se unem a bancos e barras de metal promovendo uma gramática da luz. Elementos a serem postos em ordem ou não, com equilíbrio dinâmico. 




Ordilei não faz apenas fotos artísticas, conceituais ou abstratas. Seu repertório é grande e pode ser apreciado em muitos sites, por exemplo:http://br.olhares.com/galeriasprivadas/browse.php?user_id=1618, tem inúmeras galerias criadas por ele como: natureza, urbe, pessoas, paisagens urbanas, macro e outras. No Flickr que é um dos fotologs mais utilizados do mundo, também guarda algumas (150) das suas obras: http://www.flickr.com/photos/ordicfoton/.

Para quem tiver o interesse em adquiri-las, elas estão a venda em Cuiabá na Fast Frame "Moldura na Hora" R. Estevão de Mendonça (próx. ao Choppão) e na Casa das Molduras, Rua 24 de Outubro. 




sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Compadre de Ogun



 


Argentino de nascimento e brasileiro de adoção se naturalizou em 1957. Hector Júlio Páride Bernabó ou, simplesmente, Carybé (1911-1997). Desenhista, pintor, escultor, apaixonado pela cultura brasileira, em especial, pela afro-brasileira. Carybé foi agraciado com o título Obá de Xangô (um dos pontos mais altos do candomblé) e recebeu entre outros títulos o de Doutor Honoris Causa da UFBA.

Produzia muito, mas expunha pouco. Participou da III Bienal de SP e foi homenageado na VII com uma sala especial. Deixou mais de quatro mil trabalhos entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços. Tem obras expostas nos EUA e na Rússia.

Compadre de Ogun era um capítulo do livro ‘Os Pastores da Noite’(1964) do escritor baiano Jorge Amado. Era... porque virou um livro que o próprio autor editou e também um especial para a TV Globo (1994) adaptado por Geraldo Carneiro. Inclusive é desta adaptação que surgem estas aquarelas singulares que ilustram o cotidiano sincrético da Bahia.

A história é rica antropologicamente falando e cômica. Um estivador, Massú, tem um caso sério com uma dama da noite. Do relacionamento nasce uma criança. A profissional entrega a criança para ele e some. Ele aflito por batizá-la pede auxílio à Mãe de Santo. Muitos são os pretendentes porque Massú era muito querido por todos. Ela oferece um despacho a Ogum e o mesmo diz que ele será o padrinho. O boato se espalha pela cidade e todos querem saber quem é o compadre de Ogum. Depois de descobrirem quem vai carregar Ogum e de saber qual é a igreja, Nossa Senhora dos Pretos, segue o cortejo.

Então a Mãe de Santo recebe ordem de Ogum para despachar para Exu, pois seu irmão pode querer atrapalhar o batizado. Ele pede que sacrifique uma galinha de angola, porém Exu apronta e solta a galinha. Ela então oferece três pombas brancas e Exu parece ter aceitado. Durante o cortejo ela estranha o comportamento de Ogum. O problema só, descoberto mais tarde, é que não era Ogum, mas Exu que tinha chegado antes ao terreiro. Quando desce do carro satírico para encontrar a Mãe com o bebê no colo e o Carybé, na frente da igreja aumenta o receio da Mãe de Santo.

Dentro da igreja Ogum desesperado porque Exu ia batizar a criança, procura alguém para descer. Ele encontra o padre, descendente de escravo, de origem africana, recebe Ogum e dá tapa em Exu, assumindo o seu lugar para batizar a criança.

São 31 aquarelas, de 50x35cm, que usam cores básicas para retratar com beleza o sincretismo religioso brasileiro. Dizem que Carybé sempre desenhava os rituais do candomblé, mas nunca durante os mesmos por respeito. Ele guardava as imagens na memória e as ilustrava depois.

A exposição une a literatura com as artes plásticas, pois os fragmentos do texto de Jorge Amado estão presentes ao lado das obras de Carybé. Isto torna a leitura ainda mais gostosa já que vamos além do texto para as imagens e além delas pela contínua imaginação. Ambientando a exposição ainda temos o prazer de ouvir músicas baianas com a pegada africana. A percussão induz ao transe extático e a alma está pronta para assimilar o ritual mágico.

A pesquisa exposta junto para contextualizar os autores (Carybé e Jorge Amado) foi realizada por Maristela de Fátima Carneiro, Galeart/CAC/DIESCOM – MG. A exposição foi anteriormente exibida através dos Centros de Cultura do Banco do Brasil que doou para o sistema SESC o que permite a atual circulação entre todas as unidades do SESC no Brasil. Observação: O termo Ogum é grafado desta maneira em português, mas Jorge Amado deve ter feito valer a grafia ioruba pois etimologicamente o termo vem da África e se escreve Ogun. 



Se você perdeu a exposição ou a mesma não esteve em sua cidade você pode ver um pouco da obra extraordinária deste argentino/baiano no meu flickr. É uma pena que falta o texto do Jorge Amado que dá o molho que une as imagens com comicidade.